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A dama do cabaré Brasil(Por Paulo Figueiredo)

Advogado Paulo Figueiredo(AM)
Advogado Paulo Figueiredo(AM)
Redação
Escrito por Redação

Sérgio Machado, em delação premiada, uma bomba de muitos megatons presente na Lava-Jato, disse que a Petrobras é a dama mais honesta do cabaré. Uma pobre cortesã, quanta modéstia, coitadinha, que já deu um prejuízo de bilhões de reais à nossa maior empresa de economia mista. Como Machado, ladravaz contumaz e de alto coturno, conhece muito bem as entranhas da República, imagine-se o que pode surgir, quando abrirem a caixa-preta do BNDES, das companhias do setor elétrico, bancos e outras estatais.
O Brasil apodreceu e não há quem escape, no amplo e promíscuo espectro partidário, incriminadas suas principais lideranças. Uma mixórdia geral, um imenso e putrefato mar de lama que envolve os poderes da República e a representação política nacional. Tem-se o presidente da Câmara respondendo a vários processos criminais, afastado do mandato parlamentar e de suas funções pelo Supremo Tribunal Federal, ao lado do presidente do Senado, que periclita, em situação semelhante, submetido a todo tipo de acusações de corrupção e outros crimes.

Como se não bastasse, aparece agora o nome do presidente provisório Michel Temer, que teria pedido recursos ao delator Sérgio Machado, a fim de azeitar a campanha de Gabriel Chalita a prefeito de São Paulo, seu afilhado e candidato do PMDB, lá atrás. Temer nega, como todos negam, de Renan Calheiros, passando por Sarney e Jucá, a Jandira Feghali, mas nenhum deles consegue convencer ninguém.

Vamos lá, fiquemos no exemplo do bagrinho chamado Jandira Feghali, deputada federal do PC do B, nominada por de ter recebido uma mixaria, algo em torno de 150 mil reais. Ela, que não nega ter estado em repetidas ocasiões com Sérgio Machado, certamente não o encontrou para solicitar de seu próprio bolso alguma contribuição de campanha. Nem talvez para tomar uma ingênua cajuína, feita com espécimes raros dos mais nobres cajus do Ceará, ou um sorvete de pitanga, típico da região. De mais a mais, o presidente da Transpetro, somente poderia prestar-lhe alguma contribuição financeira, eleit oral e ridícula, na condição de pessoa física. Portanto, fora daí, qualquer intervenção sua junto a qualquer empreiteiro ou prestador de serviços de sua companhia, revelaria indisfarçável negociata ou ação corrupta. Quanta ingenuidade da comunista e angelical Feghali, que jamais imaginaria que poderia ser cometido algum crime em seu nome ou no seu interesse, como não se peja de declarar, ao ser apanhada com a boca na botija.

Mas no Brasil, onde traficante consome o produto que vende e prostituta tem prazer no ato da relação sexual mercantil, tudo é possível. A propósito, na comparação de Machado, pode-se observar uma ofensa às virtuosas senhoras que se limitam a comercializar apenas o que lhes pertence. Nada além, sem qualquer invasão contra o patrimônio público, constituído pela sociedade, em nome de suas necessidades e aspirações. Neste ponto, tudo também soa tão falso quanto a inspiração de Noel Rosa, quando compôs “A dama do cabaré”, de 1934, em homenagem à sua paixão por Ceci, grande amor de sua vida, uma mocinha que não fumava e nem usava “soirée”, que pudesse ser banhada com champanhe, em seus pudicos 16 anos.

No meio do turbilhão e sem o menor pudor, o senador Renan Calheiros, expressão do que há de mais deletério na cena política brasileira, pretende agora frear a operação Lava-Jato e as ações patrióticas de seus investigadores e do juiz Sérgio Moro, via edição de um caderno de restrições legislativas. Na mesma linha, suspeitíssimo, ameaça de impeachment o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, como vindita por ter pleiteado a decretação de sua prisão e de outros em iguais circunstâncias. É a única resposta de quem não consegue justificar as inúmeras acusações que pesam sobre sua pessoa, um currículo recheado de suspeições, que no passado o levaram inclusive a renunciar a presidência do Senado, frente à ameaça de perder o próprio mandato.

Com tudo isso, os níveis de insegurança e instabilidade política e institucional alcançam patamares extremamente preocupantes. Ao fim e ao cabo, resta saber o que sobrará no campo da ética e do respeito no trato da coisa pública? Feito o rescaldo, se será possível reconstruir o país, preservados os valores mais caros da nacionalidade? São indagações que angustiam e preocupam os democratas, cientes de que qualquer solução autoritária e antidemocrática mergulhará o país no abismo, ainda mais profundo do que onde atualmente já se encontra.(Paulo Figueiredo – Advogado, Escritor e Comentarista Político – paulofigueiredo@uol.com.br)

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