Colunas Luiz Gonzaga Lauschner

A punição de outro pode causar satisfação?

Luiz Lauschner Escritor e empresário
Luiz Lauschner Escritor e empresário
Redação
Escrito por Redação

Quando vi os depoimentos dos envolvidos no Petrolão fiquei com inveja do currículo técnico deles e lamentei sinceramente sua folha corrida. Qualquer ladrões parece ter muito mais conhecimento de causa que os políticos e até dos juízes que os interrogam. São técnicos com nível superior, especialidade e até doutorado no exterior. Dominam diversos idiomas e estão acostumados a jornadas longas no trabalho onde são chefes, a frequentar ambientes requintados, têm mansões com todas as comodidades e o luxo dos bem aquinhoados. Seus salários mensais são superiores aos rendimentos anuais da maioria dos brasileiros.

Isso tudo deveria fazer deles exemplos de retidão. Está mais que provado que honestidade nada tem a ver com nível de ensino ou de estilo de vida. Tem a ver com caráter. Logicamente que muitos deles ajudavam nos desvios de dinheiro por temor de perder as mordomias de cargos de chefia, espremidos que eram por políticos corruptos. Isso nada justifica, mas torna atos desonestos mais compreensíveis. Existe até o atenuante que a maioria do dinheiro não se destinava a eles próprios, mas aos partidos e aos políticos, técnica e moralmente ainda inferiores, mas com o poder do voto e do veto por representarem o poder central.

Estas pessoas merecem ser punidas, assim como todos os que os instigadores e receptadores do fruto do roubo. Contudo, não podemos deixar de tecer algumas considerações sobre o nível da punição. Que o sistema prisional brasileiro é desumano é fato por demais conhecido. Pessoas acostumadas aos luxos em casa, em viagens e se veem jogadas nas masmorras do Brasil onde sempre foi lugar de pobre, privadas da liberdade e do conforto sofrem mais que o pobre que mora mal, dorme de qualquer jeito e tem uma única privada – com água regrada -para toda família e visitas e vai preso por motivos menores?

As pessoas sensatas no Brasil sabem que as prisões dos engravatados acontecem apesar do poder central, e não por causa deste poder. Mesmo assim, o volume deste tipo de punição é maior que a soma em todos os governos anteriores. Manobras jurídicas e tráfico de influência estão tentando engessar o braço da justiça. Pior: há uma grande campanha para desmoralizar a parcela do judiciário que age com severidade e transformar os ladrões em vítimas.

Contudo, assistir a punição não traz alegria a nós, as vítimas. Julgar malfeitores é uma prerrogativa do Estado que precisa passar um legado de probidade à população. A alegria seria verdadeira se não houvesse necessidade de se punir essa gente. Por mais que cause consternação, devemos nos lembrar do mal que os desvios de dinheiro causam ao povo brasileiro e assim não sentirmos pena dos apenados. Não causa satisfação alguma ver uma pessoa ir para a prisão, mas causaria insatisfação maior se a justiça ficasse omissa. Por outro lado, de nada adianta revoltar-se contra o assaltante da entrada de casa, do estacionamento público, da saída de bancos, da sinaleira, dos coletivos se sentirmos compaixão dos que teriam tudo para dar o bom exemplo e não o fazem.

Causa constrangimento saber que senhores que tinham auxiliares até para calçar sapatos, agora precisam acocorar-se para defecar em buraco comum e espalhar o fedor para seus colegas de cela? Daqui pra frente os presídios irão receber mais atenção do governo porque o nível social dos ocupantes é outro. Mas, um país que investe pouco na melhoria das escolas agora investiria na melhoria dos presídios? Por falar em escola e presídio, ainda pode se adotara tese que os criminosos são fruto da falta de escolaridade? Ladrão merece ser punido e forçado a devolver o fruto do roubo, mesmo que cause o desconforto que todos sentimos.Não custa lembrar: o exemplo vem de cima.

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