Colunas Luiz Gonzaga Lauschner

Carne de porco faz mal?

Luiz Lauschner Escritor e empresário
Redação
Escrito por Redação

Coitado do porco. Passa a vida levando a culpa por toda a sujeira do mundo e, quando é abatido, querem rejeitar sua carne. Pior, acusam sua carne de provocar muitas doenças que o porco desconhece. Felizmente, ele também tem defensores. Se consultarmos a internet vamos estabelecer um empate entre os que o atacam e os que o defendem. Entre os que o atacam estão aqueles que não gostariam que ele existisse. Entre os defensores estão os que querem abatê-lo para devorar suas carnes, couro e até vísceras. Coitado do porco.

Uma senhora brasileira sofreu um acidente em Madrid e passou por cirurgia. Ficou estarrecida ao constatar que a primeira refeição sólida continha carne de porco. Parece que na terra de Picasso a carne não sofre a discriminação pela qual passa em outras regiões. Um estudo da USP de Ribeirão Preto constata que a carne de porco é fonte de proteínas necessárias na reconstituição das fibras musculares e na formação de novas células. Talvez seja isso que o hospital de Madrid tenha considerado ao oferecê-la aos seus pacientes.

Na lei judaica a proibição é terminante. O Corão, que é o livro máximo dos maometanos também a abomina. Dizem alguns jocosos que a “unanimidade” entre árabes e judeus termina aí. Na realidade, o povo hebreu da antiguidade, era essencialmente pastor. O porco destruiria a comida do homem, enquanto a ovelha procurava sua alimentação nas gramíneas que cresciam até entre as pedras. A ovelha se alimentava sozinha e de quebra ainda fornecia leite, lã e carne e o porco devoraria cinco a seis vezes seu peso em comida, destruindo o que serviria ao homem. Sabe-se que a alimentação era regrada naquelas paragens. A proibição divina sobre o consumo da carne de porco revelou-se também uma questão de sobrevivência.

Com respeito a isso, existe a passagem do evangelho de Marcos, onde Jesus teria permitido aos espíritos imundos entrarem nos porcos que se suicidaram jogando-se ao mar. Embora Jesus tivesse declarado que “nada que entra pela boca do homem pode lhe fazer mal” a associação de espíritos imundos com porcos é flagrante. Não se questiona o que “cerca de dois mil porcos” faziam aí, até porque os números no livro sagrado são um tanto difíceis de serem compreendidos.

Falamos disso apenas para mostrar todo o marketing negativo que existe em torno do animal. De pouco vale dizer que o porco fez dieta e se transformou em suíno, que sempre vai aparecer alguém para afirmar que a carne é nociva. Nada comprova que ela seja. Até mesmo a afirmação de que ela deve ser bem cozida não resiste, uma vez que os salames são crus, alguns apenas defumados e são consumidos por séculos sem sequelas. Assim encontramos pessoas que não comem a carne pura, mas não resistem aos derivados dela.

Há meio século, o valor do suíno estava diretamente relacionado com o volume de banha que ele fornecesse. A banha era usada na cozinha (os óleos vegetais quase não existiam) e também para combustível de luminárias. As primeiras cestas básicas, nos primórdios do salário mínimo, previam o consumo de dois quilos de banha por família brasileira por mês. Hoje os criadores, atendendo exigências de mercado, desenvolveram suínos cada vez mais “magros”. Também o tempo entre o nascimento e o abate foi reduzido de quatorze meses para menos de quatro. Esse feito também foi conseguido com as aves e igualmente está sendo alcançado com a criação de peixes que, na natureza levam seis vezes mais tempo para chegar ao peso adulto. Ovinos e caprinos passam por “melhoramento genético” e mudança alimentar para crescerem cada vez mais rapidamente.

Pensar que os animais de mesmo gênero de três mil anos ainda sejam os mesmos de hoje é uma maneira simplista de ver as coisas. A preocupação com o tipo de carne talvez deva ser menor que o tipo de alimentação que qualquer animal que nos forneça carne seja forçado a ingerir.

Comentários

comentários

Deixe seu comentário

error: Ops! não foi dessa vez.