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Crise na Igreja: a necessidade da mudança – por Garcia Neto

Garcia Neto é jornalista e professor universitário.
Redação
Escrito por Redação

Pode-se afirmar que a renúncia do Papa Bento XVI é a prova irrefutável da crise pela qual a Igreja Católica não consegue superar.

A Igreja sempre esteve atrelada aos donos do poder, tisnando a simplicidade iniciática no jogo perigoso das especulações políticas e na posse de bens temporais, e, até os dias atuais, tem se conduzido debaixo de um regime caduco e tacanho, que só persegue os seus próprios interesses. Espera-se que o próximo conclave possa escolher um Papa que tenha a energia e a acuidade política suficientes para dominar os “apparatchiks” em disputa.

Muitas foram as manifestações de apoio à decisão do Papa, bem como não faltaram críticas mais severas à conduta da Igreja, que nos últimos anos esteve envolvida em situações vexatórias, como o abuso de padres contra meninas e meninos, cujos os responsáveis ainda continuam impunes e, por último, o envolvimento do Monsenhor Kevin Wallin, da Diocese de Connecticut (EUA), no tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. São esses casos e outros de violência moral que Bento XVI nada fez para impedir o avanço dessas práticas entre o clero.

Para reverter esse quadro, já se cogita uma nova série de conferências com o objetivo de debater temas mais delicados que possam mudar a compreensão da Igreja sobre a sua presença no mundo moderno.

Antigamente, os sacerdotes eram considerados os procuradores da divindade, sendo-lhes vedados os negócios subalternos da existência profana. Eram vistos como os verdadeiros emissários de um mundo superior e liberto das inferioridades e paixões próprias da vida terrena, sem se rebaixarem aos mesmos desejos, objetivos e cobiças comuns. No entanto, a Igreja falhou na sua missão salvacionista e educativa do homem, porque, além das contrafações dos seus representantes, ainda pontifica as mesmas fantasias bíblicas, impõe dogmas, defende o celibato aos padres, condena o sexo antes do casamento, o aborto e a união de casais do mesmo sexo.

A conferência realizada entre 1962 e 1965 gerou algumas transformações insuficientes a uma renovação esperada para a modernidade dos tempos da época. Entre as mudanças, a celebração das missas na língua de cada país; a possibilidade de conhecer Deus e a salvação por meio de outras religiões; abolição do uso obrigatório da batina, mas deixou de reconhecer o capitalismo e o comunismo.

No contexto atual, a visão de uma Igreja renovada poderá vir pela indicação de um Papa mais jovem, audacioso, de visão futurista, que trabalhe uma agenda ampla que atenda às expectativas da humanidade, com os olhos voltados para o desespero dos povos mais humildes, o crescimento das desigualdades sociais, o papel da mulher ainda não reconhecido e a questão do diálogo com as religiões fundamentalistas.

O jesuíta egípcio Henri Boulad lançou, recentemente, um SOS à Igreja em uma carta dirigida a Bento XVI – e já circula em meios eclesiais de todo o mundo. Ele informa que a prática religiosa está em constante declive, com um número cada vez mais reduzido de pessoas frequentando as Igrejas e aponta um esvaziamento vertiginoso de noviços nos Seminários e a consequente queda na vocação para o sacerdócio.

Henri critica a linguagem da Igreja, considerando-a “obsoleta, anacrônica, chata, repetitiva, moralizante, totalmente desadaptada à nossa época”, e sugere uma nova evangelização, aquela proposta por João Paulo II, que consiste em inovar, “inventar uma nova linguagem que expresse a fé de modo apropriado e que tenha significado para o homem de hoje”. O desafio para tirar a Igreja do atoleiro em que se encontra está lançado.

Enquanto a cúpula do Vaticano não abrir os olhos e repensar a necessidade da mudança, a evasão de seus fiéis para outras religiões, seitas ou doutrinas vai continuar a crescer, na busca em outros locais do alimento que não encontram em casa, para tirar-lhes a sensação de que os padres dão a seus seguidores pedra como se fosse pão. A fé cristã, que em outros tempos outorgava sentido à vida das pessoas é para elas hoje um enigma, restos de um passado que acabou. Portanto, a “Mater et Magistra” está defasada, já não serve mais.

Os cristãos católicos aprenderam a pensar por si mesmos e não estão dispostos a engolir qualquer coisa. A modernidade é irreversível, e é por ter esquecido esse momento que a Igreja entrou em rota de colisão. O Vaticano II tentou recuperar quatro séculos de atraso, mas tem-se a impressão de que a Igreja de hoje está fechando lentamente as portas que se abriram. Condenada a retornar para Trento ou para o Vaticano I, a Igreja esquece da necessidade de realizar o Vaticano III ou até um Sínodo geral a nível da Igreja universal, do qual podem participar todos os cristãos – católicos e outros – para examinar com toda franqueza e clareza os pontos a serem assinalados ou propostos.

Enquanto nada é decidido, no Brasil e em países tradicionalmente católicos, o segmento evangélico aproveita o cochilo dos padres e avança, com o surgimento de várias tendências para atender a grande demanda de fiéis indecisos.

*Garcia Neto é professor e jornalista

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