Coluna Cultura Isabela Abes Casaca

[Crônica] Sonhos artificiais – por Isabela Abes Casaca

Isabela Abes Casaca
Isabela Abes Casaca

No começo do ano, a Horizons-800 era o que havia de mais avançado em tecnologia de sonhos artificiais, porém, as vésperas do novo ano, já estava ultrapassadíssima, obsoleta até o último circuito. Ainda no primeiro semestre, a i-Dreaming 8D desbancara a concorrente, o design clean e sedutor fora pensado friamente para instigar o instinto mais primitivo de consumo, qualquer pessoa ficava cativado a comprar aquela SmartBed. Nas vitrines das lojas, massas se amontoavam para olhá-la; de vez em quando, os vendedores permitiam test drives de quinze minutos, os potenciais compradores jaziam fascinados durante a experimentação.

R.B. fitava fixamente o produto dentro da vitrine e lembrava da propaganda; a vontade de comprar a i-Dreaming 8D martelava em seu cérebro, contudo não tinha dinheiro e ainda estava pagando a sua Horizons-800. Ao recordar de sua SmartBed sentiu um imenso arrependimento, pois ela já estava com problemas, funcionando inadequadamente, falhando durante o perídio do sonhar e apresentando um delay. R. B. suspirou profundamente, lançando um olhar de despedida sobre seu sonho de consumo.

Um trovão irrompeu no céu cor de chumbo, os transeuntes se apressaram, a chuva se aproximava e prometia ser uma tempestade sem precedentes; as manchetes previam alagamentos incalculáveis e descargas elétricas mais intensas, do que as do outono da funesta depressão. R.B. apertou o passo, queria estar em casa antes da calamidade anunciada, pelos noticiários a megalópole ficaria uma semana interditada e as pessoas ilhadas em suas casas.

As nuvens mais parecia uma derramamento de petróleo, o pânico mascarado se escondia na face de quem ainda estava nas ruas, as pessoas em seu íntimo rezavam ao Deus Ex Machina, para que a tempestade esperasse o fim do expediente comercial. Se ao menos esses fenômenos naturais marcassem hora, comentou um passante com outro, contudo a selvageria meteorológica não era coisa do deus surgido da máquina, não seguia sua lógica e seus ordenamentos.

A população amargava o fato das coisas naturais resistirem e ainda existirem; eram criações atribuídas a  uma deidade primitiva,  um deus de acasos, sem muita explicação científica, cultuado há anos pretéritos por sociedades primevas, resquícios de uma idade das trevas há muito deixada para trás. As milhares de teses produzidas pelas universidades debruçavam-se majoritariamente em explicar, ou tentar, a razão pela qual aquela entidade ainda teimava em se manifestar na natureza. 97% da população mundial declarava descrer deliberadamente nela; e ainda sim, ela se fazia presente, apesar de toda descrença.

R.B. respirou aliviado, chegara em casa antes da tempestade desabar. Pegou o elevador e subiu até o 14º andar, a porta destrancou após o reconhecimento óptico e as luzes se ascenderam, com o reconhecimento das digitais. Uma voz saudou o morador, desejando bom regresso; era a inteligencia artificial RAUL CM, uma espécie de mordomo instalado nos softwares das moradias.

– Não estou pra conversa hoje RAUL… – respondeu rispidamente, jogando o chapéu que usava sofre o sofá. Gotas de chuva começaram a escorrer pelo vidro do apartamento – RAUL os técnicos vieram aqui instalar as novas janelas aprova de pH ácido?

– Sim senhor, a casa passou pelo processo de atualização para suportar a tempestade. – relatou a voz robótica. R.B. olhou lá pra fora, imaginou se haveria algum mendigo nas ruas, um aperto tomou conta de seu coração. Meteu a mão dentro do casaco, tirou um comprimido e engoliu a seco, o aperto cessou e a indiferença retomou seu lugar.

– E os problemas da Horizons-800? Foram sanados? – perguntou observando a SmartBed.

– Senhor, eu procurei reparar os sistema XDream1.4, porém foi ineficaz, a tecnologia deteriorou-se, ultrapassou seu prazo de validade, é aconselhável comprar uma nova. – R.B. suspirou e lembrou-se que não tinha dinheiro para comprar um novo modelo, lamentando permanecer ilhado uma semana com uma SmartBed quebrada e cheia de bugs.

– Essa tralha terá de servir… – Apertou o botão de ligar e esperou o sistema operacional listar as opções de sonhos disponíveis para uso. A biblioteca tinha quinhentas possibilidades oníricas, se precisasse aumentar o repertório era só comprar e fazer o download. O mercado de sonhos era sempre crescente, não sofrendo com as baixas dos outros setores. Anualmente compositores, desenvolvedores, roteiristas, programadores, projecionistas e engenheiros de sonhos trabalhavam juntos na confecções de novos exemplares para os fiéis consumidores.

R.B. retirou as roupas de trabalho e vestiu o traje de dormir, depois escolheu uma das opções aleatoriamente sem prestar muita atenção. Deitou-se e conectou os eletrodos no corpo e na cabeça, respirou profundamente e fechou os olhos, almejando que o delay de iniciação não fosse muito longo. Enquanto esperava a Horizons-800 começar seu trabalho, a mente devaneou, a angústia e ansiedade tomaram conta de R.B., as pernas balançavam de um lado para o outro, olhava para o teto sem focar-se em nada.

Levou a mão a boca para roer as unhas, porém elas já estavam todas roídas, a respiração fluía em soquinhos curtos, que agonia esperar aquela geringonça, já se passara meia hora e nada. Então, sentiu uma descarta eletromagnética, o corpo relaxou, estava começando enfim. Veio outra onda subindo pela coluna vertebral e chegando ao sistema cerebral, inebriando a rede neural; R.B. apagou, entrando em transe, amortecido com todo conforto.

Os sonhos artificiais duraram a noite inteira, as vezes falhavam por alguns minutos, porém nada prejudicial ao sonhador. Era uma programação interrupta, que seguia um script, impedindo sonhares descontrolados, sem nexo, indesejados e inconvenientes. Com certeza essa tecnologia era um ápice da destreza humana, o controle do subconsciente e da capacidade de sonhar, um prodígio oferecido pelo Deus Ex Machine… Sonhares artificiais…

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Isabela Abes Casaca
Twitter: @isabelacasaca
http://www.novaagora.org/

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