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Do Luxo ao Lixo ou Convite ao Passeio Socrático – por Isabela Abes Casaca

Isabela Abes Casaca

Não quero luxo, nem lixo,
Meu sonho é ser imortal.
(Rita Lee)

A Idade Moderna foi palco das grandes navegações, onde os povos europeus lançaram suas naus nas águas oceânicas e povoaram os demais territórios da orbe. Além de proporcionarem a posse das terras dos “novos mundos”, as viagens marítimas também serviram para ampliar as rotas de comércio. Entre os séculos XV e XVI, foram estabelecidas relações com África, Américas e Ásia, em busca de uma rota alternativa para as “Índias”, cuja propósito era a busca por ouro, prata e especiarias.

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Embora o renascimento comercial seja anterior a esses fatos supracitados, pode-se dizer que, foi nesse momento que esta renascença ganhou escala global, dando início a globalização que vivenciamos. Dentro deste contexto histórico temos a gestação do capitalismo, este depois de gestado começou a dar seus primeiros passos, para posteriormente se estabelecer na Idade Contemporânea.

O capitalismo tem como uma de suas raízes esse processo de procura de produtos singulares, assim se iniciou a formação da sociedade de consumo e seus vários bens. Os primeiros artigos de luxos ofertados eram as especiarias orientais: produtos de origem vegetal (flor, fruto, semente, casca, caule, raiz), de aroma ou sabor acentuados. Utilizadas na culinária, com fins de tempero e de conservação de alimentos, as especiarias também tem finalidade farmaceutica, na preparação de óleos, unguentos, cosméticos, incensos e medicamentos.

Atualmente este leque se desdobrou em muitas outras possibilidades: roupas, carros, computadores, maquiagens, sapatos, celulares etc. Em resumo, basta um pequeno exercício de observação que encontraremos muitos exemplos. Devido a facilidade de aquisição destas mercadorias o descarte das mesmas é muito comum. O que gera a seguinte questão: o luxo de agora é o lixo de outrora.

A situação é tão séria que há um aglomerado de detritos no oceano, conhecida como Grande Ilha de Lixo do Pacífico, cujo tamanho já se aproxima de 680 mil quilômetros quadrados, o equivalente aos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, e esta infeliz localidade está expandido suas “fronteiras”.

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Cotidianamente emprestamos nossos olhos e ouvidos para as mensagens dos comerciais. Madrugamos e nos acotovelamos para comprar um aparelho de telefonia móvel no dia de sua estréia. Uma bebida gaseificada é nosso elixir da longa vida. Abarrotamos lojas, os shoppings são nossas mesquitas, as placas de liquidação nossos minaretes. Onde será nossa Meca? 25 de Março, Outlet, Mall of the Emirates, Time Square, Tokyo Midtown Mall, West Edmonton Mall, Wall Street? E nossa Caaba? Ao redor de que orbitamos? Ao redor de que transitamos repetindo corruptelas de orações e mantras? Acho que ouvi alguém sussurrar:

– Happiness… Glück… Joie… Felicidad… Felicidade… Felicidade… Felicidade…

Enquanto isto, Sócrates nos observa dos campos Elísios pensando:

Vejam só quanta coisa existe e que não preciso para ser feliz…

Como assim? Explico. Sócrates gostava de passear pelos mercados atenienses, quando interpelado pelos comerciantes respondia: “Estou apenas observando quanta coisa existe e que não preciso para ser feliz.” Pena que estes tipos de passeios são raridade nos tempos pós-modernos…

E você, quer garantir seu terreno na novíssima Island Luxo-Lixo ou quer fazer um passeio socrático?

Isabela Abes Casaca
Twitter: @isabelacasaca
http://www.novaagora.org/

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