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Indignação de um petista histórico (Por Paulo Figueiredo)

Advogado Paulo Figueiredo(AM)
Redação
Escrito por Redação

Ele se chama Carlos Alberto Libânio Christo e tornou-se conhecido como frei Betto. Não é fundador do PT, mas declara-se eleitor histórico do partido. No primeiro mandato de Lula, prestou-lhe assessoria, com gabinete em palácio. Teve vida oficial curta ao lado do ex-presidente, inconformado com o projeto de poder do antigo metalúrgico.
É amigo da presidente Dilma Rousseff, com quem esteve acompanhado de Leonardo Boff. No encontro, pontuaram ações de governo, ouvidos em silêncio e sem discordância. No entanto, as questões não mereceram qualquer decisão, perderam-se na ausência de consequências.

Frei Betto ainda vota em candidatos do PT e do PSOL, mas anda indignado com a legenda, como observou em entrevista concedida ao jornal Folha de São Paulo. Vindo de quem vem, vale a pena transcrever alguns de seus trechos, pela verdade que encerram.

Reunião com Dilma – “Eu fui lá conversar com a Dilma, com Leonardo Boff e outros. Entregamos um texto nas mãos dela. Ficamos 1 hora e 10 minutos. Estava ela e Mercadante. Eles aceitam. Agradecem: ‘obrigado por vocês terem vindo aqui, vamos ver se podem voltar em seis meses para conversar’. Mas fica nisso. E depois fazem tudo diferente. Sabe? O que você quer que eu faça? Deite e chore? O texto está lá, tenho decorado na minha cabeça. Eu tenho uma boa relação com os dois [Dilma e Lula]. Eu falo tudo. Eles aceitam. O Lula também. Às vezes fala que a culpa  não é dele, a culpa é não sei de quem, é do partido, é da Dilma, é da conjuntura”.

Patrimônio – “Sou um um sujeito que tem poucas vaidades. Aliás eu lembrei isso pro Lula. ‘Lula, você me conheceu em 1979, o padrão de vida que eu tinha é o padrão de vida que eu tenho. Eu moro no mesmo quartinho no convento, tenho o mesmo carro Volkswagem. Agora, eu fico espantado com companheiros que a gente conheceu lá atrás e que hoje tem um… sabe?’. O PT perdeu os três grandes capitais que tinha. [O primeiro], ser o partido dos pobres organizados – porque hoje ele tem eleitores, não tem militantes, ele tem de pagar rapazes e moças desocupados para segurar bandeirinha na esquina. O segundo é o de ser o partido da ética. Não é? A ideia do ‘não seremos como os demais’. E o terceiro era o de ser o partido da mudança da estrutura do Brasil. Não fez nenhuma mudança estrutural”.

Impeachment – “A minha pergunta é se a Dilma aguenta três anos pela frente. Eu temo que ela renuncie. Ou ela dá uma mudança de rota ou ela pega a caneta e fala ‘vou pra casa, não dou conta’”.

Dirceu e o Mensalão – “Eu estou esperando o PT se posicionar. Se houve ou se não houve. E fico indignado pelo fato de o partido não se posicionar. E não se posicionar diante de uma figura tão importante do partido como ele [Dirceu]. Que eu sei que há corrupção na política brasileira, sei. Mas eu não tenho provas. Eu saí do governo sem perceber se havia mensalão”.

Lava a Jato e a vaquinha de Dirceu – Elogia a Operação Lava Jato como positiva, mas se mostra indignado com a informação de que José Dirceu faturou R$ 39 milhões e ainda assim promoveu uma vaquinha para pagar a multa da condenação do mensalão. “Tenho amigos que contribuíram com a vaquinha. Estão sumamente indignados. Eles se sentem lesados”, diz o dominicano.

Crise política e econômica – “O Brasil está vivendo uma notória insatisfação, não só com o governo. Insatisfação com a falta de utopias, de perspectivas históricas, de ideologias libertárias, desde 2013 [junho], quando houve aquela grande manifestação atípica. E foi uma enorme manifestação em que as pessoas protestavam, mas não havia proposta. Isso chamou muito a minha atenção. E quando – isso é até terapêutico – a gente entra em amargura e não vê solução, não vê saída, a gente não consegue equacionar racionalmente o que está vivendo. Não consegue buscar as causas e as perspectivas”.

O outro PT – “Ocorre no momento em que o PT faz a opção da ‘Carta ao Povo Brasileiro’, no primeiro governo do Lula. Era uma carta aos banqueiros e empresários. Ali ficou sinalizado: ‘queremos assegurar a governabilidade via elite’, não via nossas origens, que são os movimentos sociais”.

Frei Betto equivoca-se, ao não ver solução para a crise, uma vez que as manifestações de rua apontam como saída o afastamento de Dilma da presidência da República. Ela, incompetente ao extremo, é o nome da crise. Agora, com o recente acordão, costurado por Lula e Temer, sob a regência de Renan Calheiros e de outras figuras do mesmo naipe, tudo indica que conseguirá manter-se no cargo, embora sem as rédeas do governo. No comando de fato da Nação, no exercício do poder paralelo, teremos Lula, Renan, Temer, Sarney, Jáder Barbalho, Jucá ‘et caterva’.

Até quando? Talvez amanhã a rua tenha a resposta. Lá estarei. Vamos ver.(Paulo Figueiredo – advogado, escritor e comentarista político – paulofigueiredo@uol.com.br)

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