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Jucá, o bode expiatório(Por Paulo Figueiredo)

Advogado Paulo Figueiredo(AM)
Advogado Paulo Figueiredo(AM)
Redação
Escrito por Redação

Como boa parte dos políticos brasileiros, o pernambucano Romero Jucá é dos mais problemáticos, para dizer o mínimo. Foi presidente da Funai – Fundação Nacional do Índio, no governo Sarney. Projetou-se, ao lidar com a questão indígena, notadamente na administração de conflitos no Estado de Roraima, que mais tarde governaria e pelo qual seria eleito senador da República, em pleitos sucessivos. É o velho e triste Brasil profundo.
Economista de formação, íntimo dos números da economia e do orçamento público, no deserto da representação política, inafeita ao trato de temas estéreis, Jucá distinguiu-se no Senado. Com essas características e com habilidade política, foi conduzido à liderança do governo nas gestões de Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva. Até então e bem recentemente, merecia o apoio arrebatado do PT, visto como sócio e partícipe no projeto de apropriação do Estado pela horda predadora. Bem, os fatos estão registrados, para quem deles quiser&nb sp; se valer, no presente ou no futuro.

Experiente, anteviu o fracasso de Dilma Rousseff e tornou-se crítico acerbo dos rumos da economia. Embora convidado com insistência, negou-se a integrar o governo, inviabilizado pela incompetência e pela corrupção sistêmica, que tomou conta do corpo da Nação como metástase. Romero Jucá passou a advogar o rompimento do PMDB com o Planalto, certo de que o impeachment de Dilma mostrava-se inevitável. Os passos subsequentes conduziriam ao afastamento da presidente faltosa e à posse do vice Michel Temer.

Montada a administração Temer, Jucá, de aliado fiel do lulopetismo passou a inimigo e golpista, a quem cumpria destruir. Na condição de ministro do Planejamento, é alvejado com o vazamento das gravações de Sérgio Machado, ex-dirigente da Transpetro, que provocaram seu afastamento do ministério. Pretendeu-se alcançar não apenas o senador, mas o núcleo do novo governo, que perdeu um de seus membros mais importantes na articulação com o Congresso. De outro modo, forneceu-se combustível de elevada octanagem para o lulopetismo, em sua luta desvairada pelo retorno de Dilma ao poder, com o torpedeamento do processo de impeachment, uma insanidade absoluta.

Importa ao lulopetismo isolar a crise provocada pela delação de Machado em cima de Jucá. É o que diz, sem nenhuma cerimônia, a figura deplorável de Paulo Rocha, senador paraense e líder do PT, quando defende Renan Calheiros, ao sustentar que os diálogos gravados com Sérgio Machado não configuram nenhum crime ou falta de decoro do presidente do Senado. No entanto, com a divulgação de maiores detalhes das gravações, observa-se que as declarações de Calheiros revelam-se bem mais graves do que os procedimentos de Jucá, que não pode servir de bode expiatório no imbr&oa cute;glio criminoso. É exatamente o que ocorre com o ex-presidente José Sarney, que segue na mesma linha dos outros dois senadores, todos decididos a salvar Machado das malhas da Lava-Jato.

A mixórdia é geral. Sarney fala na ditadura da Justiça, como a pior das ditaduras, e pretende cooptar o ministro Teori Zavascki, relator da Lava-Jato no STF, enquanto Rodrigo Janot é considerado por Calheiros um tremendo mau-caráter. Sarney, temeroso, ainda adverte sobre as delações em curso dos executivos da Odebrecht, em suas palavras, “uma metralhadora calibre 100”.  Mesmo contra a vontade do lulopetismo e de outros segmentos do submundo da política, não há como condenar Jucá e deixar Calheiros, Sarney, Lula e Dilma livres de qualquer punição. Não custa lembrar que na tentativa de contenção da Lava-Jato e obstrução da Justiça também atuaram Lula e Dilma. Lula, em gravação vinda a público, chama os ministros do Supremo de acovardados, o procurador-geral da República de ingrato e afirma que somente ele será capaz de deter ou botar freio nos “meninos da Lava-Jato, da PF e do MP, que se sentem enviados de Deus”. Dilma nomeia Marcelo Dantas ministro do Superior Tribunal de Justiça, com a prévia obrigação de soltar presos do juiz Sérgio Moro. Faz o mesmo com o ex-metalúrgico, ao designá-lo chefe da Casa Civil, tanto é que há pedido de licença no Supremo para que ambos sejam investigados.

O senador Telmário Mota, que acionou o Conselho de Ética contra Jucá, chamado pelo presidente do PMDB de bandido, sobre cuja acusação terá que se explicar, está obrigado a denunciar Renan Calheiros e tantos outros, uma vez que não poderá agir com dois pesos e duas medidas. Com ares de asno, incapaz de compor uma simples concordância nominal, não terá alternativa.

Agora, com as declarações do ex-deputado Pedro Corrêa, Lula é finalmente puxado para o centro do escândalo do Petrolão. Era ele, segundo Corrêa, quem dava as cartas, nomeava, pintava e bordava, como grande regente de todo esquema de corrupção na Petrobras. Por isso mesmo, o ex-metalúrgico não vê com surpresa a decretação de sua prisão, segundo teria confidenciado a Renan Calheiros.

Como tenho dito neste espaço, é a república lulopetista em chamas, com seu principal líder no proscênio da tragédia.

Mas gratifica a certeza de que a Lava-Jato jamais poderá ser interrompida. Trata-se de uma conquista da sociedade e já obteve amplo apoio do Supremo, na esteira das ações isentas do felizmente inabordável Zavascki.  Como ressalta o ministro Luís Roberto Barroso, “é impensável supor que alguém tenha a capacidade de paralisar as investigações. O ministro que chega ao Supremo só responde a sua biografia e a mais ninguém”.

Nada mais republicano, uma declaração reconfortante e que honra a toga superior.(Paulo Figueiredo – Advogado, Escritor e Comentarista Político – paulofigueiredo@uol.com.br)

OBS: Coluna publicada, excepcionalmente, hoje.

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