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Lula, a origem (Por Paulo Figueiredo)

Advogado Paulo Figueiredo(AM)
Advogado Paulo Figueiredo(AM)
Redação
Escrito por Redação

As declarações de Lula sobre o PT e o governo Dilma dominaram o noticiário político da semana. Disse que seu partido envelheceu, só luta por cargos e precisa promover uma revolução interna. Perdeu a utopia. Ou salva a pele, os cargos ou o projeto petista. Sem a menor modéstia, acrescentou que é figura proeminente do partido, tem 69 anos e está cansado, repetindo o que falava em 1980. Os petistas, segundo seu líder máximo, só pensam em ocupar funções ou empregos públicos, em ser eleitos e ninguém trabalha mais de graça.
Abandonou a discrição e saiu com criticas pesadas contra o governo Dilma, que se distanciou dos movimentos sociais, segundo sua avaliação. Atribuiu à sua criatura, que teima em não ouvir seus paternais conselhos, responsabilidade exclusiva pela crise econômica e política que o país experimenta. Trata-se de uma indisfarçável tentativa de descolar sua imagem dos desgastes crescentes sofridos pela presidente e sua administração, como meio de sobreviver até as eleições de 2018. É inacreditável, mas vai além, ao subscrever as denúncias do PSDB e de outros partidos de oposição, que acusam Dilma de mentir na campanha, quando afirmou que não mexeria em direitos dos trabalhadores e que jamais faria qualquer ajuste fiscal.

Ao rematar suas corrosivas invectivas, mais ou menos na linha do que antes dissera José Dirceu, que juntou todos no mesmo saco, Lula agora vê-se com Dilma no volume morto, situando o PT em estado bem mais grave, abaixo do volume morto, lama pura. Um arremedo jocoso, embora trágico, com a situação de desabastecimento hídrico no Estado de São Paulo, do qual a gestão tucana do governador Geraldo Alckmin não tem conseguido sair, frente à estiagem persistente.

E tudo isso em meio às denúncias de recebimento de verbas milionárias da Camargo Corrêa para o Instituto Lula, uma organização sustentada por receitas nebulosas, provenientes de empreiteiras com grandes negócios à sombra do poder, suspeitas de participação no esquema de corrupção na Petrobras. Tais fatos levaram à convocação do dirigente maior da organização, Paulo Okamoto, amigo leal, íntimo e confidente de Lula, obrigado a prestar depoimento perante a CPI da petroleira na Câmara, em circunstâncias que deixaram Lula mais do que indignado, revoltado.

Lula está coberto de razões em suas críticas ao PT e ao governo Dilma. No entanto, o metalúrgico não olha para o próprio rabo, quando procura transferir a crise e os descalabros para sua pupila, entronizada no poder da República por obra e graça de sua liderança. Lula está na raiz de tudo, na origem de todos os atos criminosos, desde o Mensalão e outras mumunhas, vindos à tona em seu primeiro mandato presidencial. Mais do que José Dirceu, era ele quem detinha o domínio dos fatos, porquanto jamais montariam uma operação de tamanha envergadura, como a compra de apoio e voto de parlamentares no Congresso Nacional, sem seu conhecimento e aval.

Lula reclama dos militantes hoje sequiosos pela ocupação de cargos no governo, mas esquece que é o responsável pelo aparelhamento do Estado pela companheirada, desde sua primeira investidura. No imbróglio Petrobras, aparecem diretores nomeados ou designados pelo próprio, a partir do sindicalista Sérgio Gabrielli e da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, presidentes da empresa e de seu Conselho de Administração. Em tudo deixou a marca de suas digitais e no presente posa de bom moço com a maior desfaçatez do mundo.

Queixa-se de que ninguém mais no partido trabalha de graça, ao revelar que a tropa só se movimenta quando devidamente remunerada, com cargos ou com grana viva. É verdade, no mesmo sentido do que ocorre com as demais legendas partidárias, distantes de qualquer motivação de ordem ideológica. Mas, a indagação é elementar: e o próprio Lula, desde os tempos do sindicato e mais tarde como líder partidário, quando trabalhou de graça? Parece piada, no país da piada pronta, como diz o Macaco Simão.

Fala que o PT perdeu a utopia, talvez como sonho de uma sociedade mais justa e solidária, mas não se peja de celebrar acordos espúrios, à direita e à esquerda, com extraordinária visão prática dos atos e fatos da ação política. Como dizia Brizola, sempre foi capaz de pisar no pescoço da própria mãe, em busca do poder pelo poder, longe de qualquer conotação utópica ou quimérica.

Com raro oportunismo, opõe-se a Dilma e a seus projetos de estabilização da economia, como se fosse possível dissociar-se dos fracassos e da falência do governo, constituído sob sua única inspiração e irmanados para sempre. Insiste em figurar como coitadinho, vítima das elites e dos meios de comunicação, segundo reitera nota de solidariedade dos senadores do PT, no momento em que a Operação Lava-Jato se aproxima perigosamente do ex-presidente.(Paulo Figueiredo – advogado, escritor e comentarista político – paulofigueiredo@uol.com.br)

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