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Meta de arrocho levou 4 reuniões para cair de 1,1% para 0,15% do PIB

Levy(E) último a acreditar no "arroxo"/Foto: FPress
Levy(E) último a acreditar no "arroxo"/Foto: FPress
Redação
Escrito por Redação

“Estamos lutando por 2016, pois 2015 é um ano perdido.” A frase, proferida com pequenas variações por diversos assessores presidenciais nos últimos dias, resume o espírito das negociações que terminaram por praticamente zerar a meta de arrocho prometida para este ano.
O mercado financeiro esperava por uma redução, mas se surpreendeu na manhã de 22 de julho, quarta-feira, ao se deparar com uma queda, de 1,1% para 0,15% do PIB, da meta de superavit primário (economia feita pelo governo para pagar juros da dívida).

Caiu sobre o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o ônus da imprevisibilidade e da derrota. Logo ele que embarcara na cúpula da Esplanada agarrado à ideia de que só uma meta forte, rigorosamente seguida, seria capaz de devolver a credibilidade ao governo na área fiscal.

Não por acaso, o ministro foi o último a aceitar tal redução, às vésperas do anúncio. Até mesmo sua equipe já previa desde a semana anterior, em alguns cenários, um resultado primário nulo.

QUATRO ENCONTROS

A Folha reconstruiu as últimas quatro reuniões do governo sobre o assunto. Apesar da versão oficial de que a proposta viera do ministro da Fazenda, todos os relatos apontam que ele foi convencido a aceitá-la.

As reuniões finais sobre o tema começaram na sexta (17), quando o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, ainda tentava emplacar uma banda para o superavit: centro da meta em 0,4%, com teto de 0,8% e piso de zero.

Levy não topou.

“Nunca vi dois caras tão teimosos quanto esses aí”, comentou a presidente Dilma Rousseff, segundo auxiliares.

No domingo (19), a Fazenda abriu os números de sua frustrante arrecadação: queda de 2,44% em junho. Tudo apontava para deficit no primeiro semestre. O Planejamento defendeu, então, que a meta deveria girar em torno de 0,2%. Mas o titular da Fazenda não cedia.

TESOURADA RADICAL

Na noite de segunda-feira (20), Levy ainda apostava na manutenção de 1,1% do PIB ou em patamar muito próximo. Tanto que, naquele mesmo dia, no Palácio do Planalto, na penúltima daquela sequência de reuniões, fez uma proposta dura: cortar R$ 50 bilhões em despesas para segurar a meta no nível original.

Em seus cálculos, com uma tesourada tão ampla, o Congresso Nacional veria que a situação fiscal era dramática e se sentiria compelido a ampliar o apoio a cortes de gastos e aumento de receitas.

As reações foram ruins.

Com um bloqueio dessa ordem, o governo poderia estancar de vez. Dilma veria sua popularidade cair à casa de um dígito, e o desemprego aumentaria mais.

O ministro então reviu sua posição e, na terça, aceitou o 0,15%, desde que houvesse contingenciamento adicional. Propuseram-se R$ 15 bilhões, mas não havia nem isso para limar. O número final ficou em R$ 8,6 bilhões.

A presidente bateu o martelo na terça, mas temia enfraquecer Levy. Ela própria instruiu sua equipe a disseminar que ele não havia sido derrotado. Nos momentos seguintes ao anúncio de quarta, todos os ministérios atribuíam a proposta de 0,15% ao titular da Fazenda.

Trata-se de uma verdade parcial. A equipe de Levy já havia trabalhado com o cenário de 0,15% (a Folha pediu à Fazenda, sem sucesso, acesso ao documento que continha tal cálculo). Mas o ministro demorou tanto a aceitá-lo que não havia mais tempo de preparar o mercado para um tombo tão grande na meta.

A preocupação com a imagem de seu ministro tem origem na viagem aos EUA, em junho. Dilma mostrou-se impressionada com o acesso de Levy a investidores. Constatou que ele se tornara, de fato, o fiador da política econômica de um governo em crise.

Todo o debate sobre a meta fiscal foi permeado pelo temor de Levy deixar o cargo, algo descartado por ele próprio antes de os rumores se avolumarem.

Preocupado com o rótulo de fracasso, porém, ele e Barbosa se empenharam em demonstrar que a relação entre os dois estava intacta. Questionado, Barbosa afirmou que fora o colega, sim, o autor da proposta do 0,15%.

BOLA BAIXA

Não que os dois ministros não tenham divergido. Isso ocorreu com muita frequência. Em uma das discussões, Levy se levantou da cadeira e começou a andar pela sala de reunião falando firme.

“Vocês têm que baixar a bola”, recomendou a presidente. “Quem está com a bola alta é ele”, respondeu Barbosa, em tom de brincadeira. “Então quem está com a bola baixa é você, Nelson”, disparou um dos presentes. Levy, Barbosa e Dilma sorriram.

E o debate do qual todos (presidente inclusive) saíram derrotados retomou seu curso até o mercado se exasperar com a surpresa de uma redução tão forte na meta fiscal.(Filha)

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