Colunas Paulo Figueiredo

Número Zero( Por Paulo Figueiredo )

Advogado Paulo Figueiredo(AM)
Advogado Paulo Figueiredo(AM)
Redação
Escrito por Redação

Deixando de lado o furacão da crise lulopetista, a cada dia uma agonia, escrevo sobre o mais recente romance de Umberto Eco, Número Zero, pouco mais de 200 páginas, que acabo de ler de uma assentada. Não tem a densidade erudita de O nome da rosa, O pêndulo de Foucault e O cemitério de Praga, mas não deixa de ser bem interessante. No universo ficcional do autor, tem-se um jornal – Amanhã –, produzido para não circular, daí a numeração do periódico, que jamais chegará às bancas.
Nas reuniões dos jornalistas que cuidam do planejamento e edição do Número Zero, revela-se a face negra de boa parte da imprensa, como assim se mostra em qualquer lugar do mundo. Há interesses intrincados do pior jornalismo, fundado no embuste e na farsa, a fim de apanhar leitores ingênuos e com o propósito de chantagear instituições, empresas, falsos amigos, inimigos e adversários.

Em qualquer hipótese, o sacrifício da verdade, vítima maior. Danem-se os fatos, porquanto importante será a versão a ser oferecida sobre os acontecimentos, que atendam aos objetivos que justifiquem a criação do jornal. Nas colunas tradicionais, espaços obrigatórios, em destaque para a seções de horóscopo, anúncios fúnebres e palavras cruzadas, elabora-se a partir do nada, com informações enganosas, destinadas apenas a satisfazer e conquistar os incautos.

É o retrato da realidade. Um parêntese. Ainda jovem, ao trabalhar num jornal da minha velha e amada província, foca de polícia, como todos começavam nas redações daquela época, vi muitas das ocorrências como são narradas pelo escritor italiano. Em cima da hora, quando havia atraso, notadamente em relação ao zodíaco, não custava nada encarregar um redator mais talentoso de elaborar textos que agradariam a quem se acostumara a sair de casa somente após conferir o que os signos ditavam no dia da consulta. Como alternativa, era possível republicar colunas de edições passadas, sem tirar nem pôr, mesmo porque ninguém se daria à pachorra de identificar a repetição. E muitas notícias eram redigidas a partir do inexistente, pura imaginação, porque grande parte dos repórteres era remunerada por produção, levantada nos finais de semana. Lembro de um secretário de redação, um pouco desatento, nervoso, sem saber o que fazer, na iminência do fechamento da edição, pois esquecera onde havia posto as notas diárias de um conhecido jornalista. Foi então aconselhado a reproduzir uma coluna de alguns meses atrás, o que foi feito, sem que o autor jamais tivesse reclamado, fato que nos levou à conclusão de que nem o próprio lia o que ele mesmo escrevia, quanto mais seus possíveis leitores. Passamos um bom tempo rindo dessa história.

Voltando ao Número Zero, a narrativa também prende a  atenção do leitor com teorias conspiratórias a respeito da morte de Benito Mussolini, cujo corpo foi encontrado pendurado, desfigurado e de cabeça para baixo num posto de combustível nos arredores de Milão. O Duce, cuja identificação médico-legal tornou-se imprecisa, teria escapado e se refugiado na Argentina, sob proteção de organizações simpáticas ao nazifascismo com atuação naquele país. Aventou-se até mesmo a possibilidade de um golpe de Estado, que traria Mussolini de volta ao poder, no ano de 1970, ideia logo abandonada, diante da idade avançada que o fascista já teria na ocasião, próximo dos noventa anos. A sublevação contra a democracia e o regime de liberdades, como se vê no corpo do romance, não perpassa apenas pela cabeça de golpistas típicos do mundo subdesenvolvido e latino-americano. Há também o caso do suposto assassinato do papa João Paulo I, que ainda permanece envolto em névoas, e das manobras do poder em cima das Brigadas Vermelhas, como elementos que tornam a ficção atual, procedimentos que se desenvolvem nos bastidores e que jamais chegam com clareza ao grande público.

Um desafio presente e de caráter global, a corrupção política não poderia deixar de se fazer presente na obra de Eco, mais tarde enfrentada com sucesso pela Operação Mãos Limpas, na qual espelha-se a Lava Jato, até o momento coroada de êxito. Espera-se tenha amplo efeito pedagógico, ao levar à prisão dirigentes das maiores empreiteiras do país e políticos do PT. Na Itália, como no Brasil, a presença de magistrados corajosos, independentes e determinados, com ações que realimentam a esperança de uma pátria livre do cancro que atualmente toma conta como metástase do corpo da Nação.

Portanto, uma leitura que vale a pena.(Paulo Figueiredo – advogado, escritor e comentarista político – paulofigueiredo@uol.com.br)

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