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O Limiar entre a Distopia e a Utopia – por Isabela Abes Casaca

Isabela Abes Casaca
Isabela Abes Casaca

O que é uma distopia?

É o oposto de utopia. A distopia é um pensamento filosófico que caracteriza uma sociedade imaginária, controlada pelo Estado ou por outros meios extremos de opressão, criando condições de vida insuportáveis aos indivíduos. Alguns traços característicos da sociedade distópica são: poder político totalitário, mantido por uma minoria; privação extrema e desespero de um povo que tende a se tornar corruptível.

Pela definição você já deve ter lembrado de muitas obras de ficção não é? Obras clássicas como:

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley (1983),
A Revolução dos Bichos, George Orwell (1945),
Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, George Orwell (1948),
Fahrenheit 451, Ray Bradbury (1953),
Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, Philip K. Dick (1968)
V de Vingança, Alan Moore (1982)
Série Fundação, Isaac Asimov (1951-1993)

Há também uma nova geração de ficção distópica emergindo na atualidade:

Série Jogos Vorazes, Suzanne Collins (2008-2010)
Série O Doador, Lois Lowry (1993-2012)
Série Maze Runner, James Dashner (2009-2016)

E o que é uma utopia?

É a ideia de civilização ideal, fantástica, imaginária. Um sistema ou plano que parece irrealizável. No sentido geral, o termo é usado para denominar construções imaginárias de sociedades perfeitas, de acordo com os princípios filosóficos de seus idealizadores. No sentido mais limitado, significa toda doutrina que aspira a uma transformação da ordem social existente, de acordo com os interesses de determinados grupos ou classes sociais.

Esta palavra foi cunhada por Thomas More, sendo que ela titula um de seus livros, o mais famoso aliás. Nesta obra, há primeiramente uma crítica a sociedade inglesa do século XVI, sob o reinado de Henrique VIII. Depois, como contraponto, é descrita uma ilha-reino, onde a organização social é, em linhas gerais: perfeita, ideal, sem propriedade privada, com absoluta comunidade de bens e do solo, sem antagonismos entre a cidade e o campo, sem trabalho assalariado, sem gastos supérfluos e luxos excessivos, com o Estado como órgão administrador da produção. Há felicidade, harmonia, cidadania, , educação, igualdade, justiça, tolerância e paz.

A estrutura social é bem hierarquizada, as famílias escolhem representantes, estes escolhendo um príncipe, entre quatro candidatos propostos pelo povo. O principado é vitalício, mas o soberano pode ser deposto a qualquer momento que se suspeite de tirania. A cada três dias, há reuniões entre o governando e os representantes, onde eles deliberam sobre negócios do país, sendo proibido reunir-se fora das assembleias, isto se faz com o intuito de impedir conspirações.

As cidades em Utopia são praticamente todas iguais, sendo compostas de famílias, as casas são de posse comum e seus habitantes se mudam a cada dez anos. Todos os utopianos aprender a agricultura desde crianças na escola. E também aprendem um oficio especial. As roupas tem forma única e são confeccionadas pelas próprias famílias. Em geral um filho aprende a profissão do pai, mas caso tenha aptidão por outra pode aprendê-la, sendo permitido, também, a alguém que já possua uma profissão aprender outra.

Há um encarregado de não permitir que ninguém se entregue ao ócio. E a jornada de trabalho diária é de apenas seis horas, três antes e três depois do almoço. Todas as manhãs os cursos públicos são abertos e somente os destinados as letras são obrigados a fazê-lo, mas todos têm o direito de assisti-lo. À noite antes de dormir os utopianos se divertem com música, conversa ou jogos de raciocínio.

Mas, só seis horas de trabalho por dia? Thomas More explica: Às seis horas de trabalho são extremamente suficientes para as necessidades do consumo público e ainda superam em muito o exigido, produzindo um excedente. Isso acontece porque em Utopia todos trabalham.

O excedente é armazenado, para o caso de más colheitas. O restante é exportado a baixos preços, possibilitando a ilha ter dinheiro para comprar produtos que não existam nela, como o ferro, o ouro e a prata. Não existe dinheiro em Utopia, então os utopianos acham o ouro e a prata metais de pouca serventia. Contudo, eles sabem o valor que esse metais tem para outros povos, por isso não os descartam.

A saúde também é acessível a quem precisar, em torno das cidades existem hospitais com ótimo atendimento e estoque de remédios. Quando um cidadão deseja viajar por qualquer motivo, ele deve informar as autoridades e caso não haja nenhum impedimento tudo lhe é provisionado. Muitos dispensam as provisões e andam sem nada, pois onde estiverem poderão se alimentar e dormir com segurança.

Existem várias religiões em Utopia, algumas idolatram o sol, outros a lua, um antepassado, mas a maior parte dos habitantes acredita em um Deus único a quem o chamam de pai. Apesar de suas diferenças todos os utopianos concordam que existe um ser supremo, criador de tudo e de todos. Apesar das diferentes crenças, todas são praticadas no mesmo templo. Sempre buscando a harmonia entre todas as religiões, portanto há tolerância entre elas.

As necessidades e a felicidade coletiva predominantes às individuais, tendo grande força na concepção do governo da ilha, o fio condutor de sua filosofia e religião é justamente a busca pela felicidade. Ambas pregam a felicidade boa e honesta acima de tudo, viver como manda a natureza, levando uma vida honesta e agradável.

Explicando mais, a predominância das necessidades coletivas são baseadas numa filosofia do prazer. Os conceitos de prazer e felicidade são essenciais na construção da Utopia. É pensando em felicidade e nos prazeres que More vai dar o sentido e razão de existência dessa sociedade. Todo cidadão de Utopia busca o prazer. Mas o seu prazer não pode resultar no prejuízo, num mal a outrem.

Alguns poucos poderiam não buscar o prazer sem serem considerados tolos, porém estes seriam pessoas extremamente religiosas ou santas que se absteriam da felicidade em prol do bem comum, uma espécie de mártires. Mas estes indivíduos seriam raros.

Parece incrível né? Eu mesma me encantei quando li a pela primeira vez, o livro de More. Porém, o limiar que separa as distopias das utopias é muito ténue. Como assim? Muitas utopias na realidade não mais são mais do que distopias disfarçadas. Sociedades muito perfeitinhas e “redondinhas” na verdade escondem em suas entranhas algum tipo de opressão, seus integrantes tem que estar dentro de uma rígida ordem, um padrão, um formato, se fugirem a este formato estão encrencados.

Na própria obra em questão há indícios que o país Utopia poderia a qualquer momento converter-se numa distopia. No panorama social proposto as liberdades individuais não estão em posição de privilégio, elas estão em detrimento da “causa maior” e do amplo controle governamental. Por exemplo, as famílias são controladas, se uma crescer demais o excedente é realocado em outra. É estranho né? Laços familiares não são contabilidades matemáticas. Outro exemplo, para viajar o cidadão precisa obrigatoriamente de autorização, caso inicie a jornada sem ela, o indivíduo será preso e tornado escravo.

Isso mesmo, existe escravidão em Utopia, esta é a pena ordinária para maioria dos crimes, quando os condenados se revoltam são rapidamente sacrificados. Já os escravos de bom comportamento podem a qualquer momento receber a liberdade. E qual seria a diretriz para determinar a qualidade do comportamento? Refletir sobre o status quo, não concordar com o tipo de governo, exercitar o pensamento plural, seriam maus comportamento passíveis de prisão?

Apresento mais um ponto, se a ilha se tornasse super populosa decretar-se-ia a imigração geral. Incorporando ou expulsando os povos que por acaso vivessem no território almejado. É, pelo visto, esse pessoal não é tão politicamente correto quanto aparenta… Conseguem ver o quão frágil é a linha que separa a utopia de uma distopia?

Não acredito que Thomas More tivesse a intenção de oprimir quem é que fosse, ele me parece uma pessoa bem intencionada, porém boas intenções podem desmantelar quando confrontadas com a realidade. A procura pelo bem comum, pela liberdade, igualdade, fraternidade, tolerância, felicidade e ausência de orgulho mesquinho, não se mostraram tão fáceis de conseguir, os ideias presentes no livro degringolaram perante muito do que se viveu no século XX: primeira e segunda guerra, guerra fria, socialismo (nascimento, auge e derrocada).

E ainda estão degringolando. No século 21, a busca pela felicidade ganhou força sem igual, está causando uma crise humana sem precedentes na história que está na memória dos seres humanos. Vários dos livros distópicos que elenquei também desconstrói Utopia, o que é preciso é um exercício nosso para encontrar relação entre as obras.

Admito que estou sendo anacrônica nesta análise, Thomas More não experienciou o que os séculos posteriores ao seu falecimento trouxeram, os pensamentos, fatos históricos etc. Portanto, não lhe seria possível prever o que viria a acontecer. Não é o meu objetivo desmerecer ou diminuir o filósofo, meu intento é deixar a reflexão de como é ténue o limiar que separa aquilo que é taxado como utopia daquilo que é considerado distopia. Também desejo refletir: Quais cuidados nos são necessários para não embarcarmos em furadas, para não comprar ideias vãs, ou para não seguir “falsos profetas”?

Pensemos… Reflexão constante, sobre o mundo em que vivemos e principalmente, sobre nós mesmos…

A ditadura perfeita terá as aparências da democracia,
uma prisão sem muros na qual os prisioneiros
não sonharão com a fuga.
Um sistema de escravatura onde,
graças ao consumo e ao divertimento,
os escravos terão amor à sua escravidão.” (Aldous Huxle)

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