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O nosso Gaia Nina (Por Paulo Figueiredo)

Advogado Paulo Figueiredo(AM)
Advogado Paulo Figueiredo(AM)
Redação
Escrito por Redação

Álvaro Gaia Nina, o nosso Gaia Nina, foi um extraordinário tribuno popular, um orador incandescente. Inflamava e conquistava quem o ouvia, lá atrás, em período histórico de ebulição extrema, que desaguaria na derrocada das instituições políticas no país. Vivíamos às vésperas do Golpe Militar de 1964, que sepultaria esperanças e sonhos de uma pátria livre e desenvolvida.
No Estado, já enfrentávamos um governante atrabiliário, infiel às suas origens e inafeito à participação de setores organizados da sociedade em torno das mais justas aspirações da população. Assim, éramos obrigados a atuar em duas linhas, uma local e outra nacional, expostos a todo tipo de violência, perpetrada contra lideranças do movimento sindical e estudantil no Amazonas. Foram tempos difíceis, que testariam o vigor de nossas convicções ideológicas, diante de um governo opressor, disposto a esmagar no nascedouro qualquer movimento de resistência ou oposição a seus propósitos de domínio e poder.

Ao nosso lado, desarmados e vulneráveis, tínhamos apenas a solidariedade fraterna de quem assume o bom combate, a força de quem advoga em nome da Justiça e a fé na libertação dos segregados. Como expressão maior, nesse contexto, despontava a figura de Álvaro Gaia Nina, palavra firme e corajosa em defesa de princípios que mobilizavam a juventude daquela época. Cansei de vê-lo e ouvi-lo, no cais do porto, sobre caixotes improvisados, ou em assembleias estudantis e sindicais, vergastando os adversários e acenando com o verbo do futuro, certo de que venceríamos as sombras que se prenunciavam no horizonte.

Mas a democracia sucumbiu e fomos derrotados. Amargamos uma longa e cruel ditadura. No Amazonas, como lembra Felix Valois, em comovente artigo publicado ontem neste jornal sobre a morte de nosso querido amigo, tivemos um estágio feroz de caça às bruxas. E Gaia foi um dos mais procurados, fato que nos obrigou a bater em retirada com o amado companheiro, um dos mais emblemáticos personagens de meu livro sobre a quartelada de abril de 1964, com histórias que experimentamos no mais sofrido recolhimento ou na clandestinidade.

Na ocasião, em manchetes de primeira página e em letras garrafais, como se dizia antigamente, os jornais anunciavam a perseguição das forças militares contra o líder estudantil Álvaro Gaia Nina e davam como certa a prisão do ‘perigoso subversivo’. Logo seria anunciada, como verdadeiro troféu para os agentes do golpe que conseguissem capturá-lo. Felizmente, fracassaram. Nunca colocaram a mão ou encontraram o nosso Gaia, refugiado em lugar seguro, lá pelos lados do Japiim, local então bem distante e um pouco inacessível. Tratava-se de um sítio modesto, com casa rústica de m adeira e cômodo único, mas com uma piscina natural formada por um riacho de águas translúcidas, que guardo na memória com saudade, apesar dos momentos tumultuados e trágicos da época. Com outro querido amigo, Edgar Ribeiro de Souza, que também já tomou o caminho das estrelas, vencíamos um percurso cheio de obstáculos, em jipe muito usado e precário, com vários ramais de terra batida e igarapés rasos.  E lá chegávamos, com um rancho generoso, todos os sábados, bem cedinho, onde permanecíamos com os companheiros até as primeiras horas da noite, que nos permitia regressar ao centro da cidade com relativa segurança.

O desaparecimento de Gaia me deixa bastante abalado. Segundo sua mulher Inês, desceu o grande rio sereno, como sempre viveu, com o desvelo da companheira de toda uma vida e dos filhos. Estive em seu velório na sede da Ordem dos Advogados e sofro com sua dolorosa ausência. Mais recentemente, atuamos juntos como advogados do Fórum pela Ética na Política, em nome de postulados hoje tão vilipendiados, e conquistamos vitórias significativas em benefício da sociedade.

Não estou bem certo se foi o poeta Manuel Bandeira que dizia que morrer é como dobrar uma esquina para nunca mais ser visto, uma imagem que procura amenizar um pouco a angústia que nos provoca a chegada da ‘indesejada das gentes’. Gaia dobrou a esquina, repito, desceu o grande rio, mas continuará para sempre presente, com seu discurso firme e inflamado, mas sempre associado a uma expressão terna e doce. Não foi à toa, no universo instigante das coincidências, que lá em Parintins, em ambiente meio mágico, recebeu o nome de Gaia – a Mãe Terra, na mitologia grega, elemento primordial, berço de todos nós. Assim ficará e assim jamais o esqueceremos, agora dominados por uma tristeza profunda.(Paulo Figueiredo – Advogado, Escritor e Comentarista Político – paulofigueiredo@uol.com.br)

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