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“Plano de reforma de ensino pode aumentar desigualdades’’, diz socióloga

Socióloga Maria Alice Setubal/Foto: Divulgação
Redação
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Uma das principais autoridades em educação do Brasil, a socióloga Maria Alice Setubal acompanha com lupa o que acontece com o ensino público no Brasil por meio do Centro de Estudos em Pesquisa e Educação (Cenpec), instituição da qual faz parte do conselho. A especialista faz uma crítica contundentes ao projeto de reforma do ensino médio apresentada esta semana pelo governo de Michel Temer.

Segundo ela, em longa entrevista ao El Pais, o projeto deixa “pontos cegos para um processo tão complexo” e pode aumentar a desigualdade.

Algumas propostas contempladas no projeto se chocam com a concepção de Maria Alice sobre justiça social e valores éticos para a sociedade brasileira, inclusive pela apresentação via Medida Provisória.

Sua opinião tem peso, segundo o periódico espanhol, não só por ser doutora em Psicologia da Educação. Mas também pelo sobrenome que carrega. Maria Alice, ou Neca, é filha de Olavo Setubal (faleceu em 2008), que fundou o banco Itaú, o maior banco privado do Brasil, presidido pelo seu irmão Roberto Setubal.

Por isso, sua visão ganha destaque por sair do âmbito ideológico, em meio à discussão sensível da reforma do ensino médio, apresentada às pressas pelo Governo Temer nesta semana.

Segundo ela, o projeto, que já estava em discussão no Congresso, não tem o aceite da sociedade, apenas dos partidos. “Os tempos da política e dos políticos é um e o tempo do processo [de reforma da educação] é outro. Esta é uma reforma muito complexa, que exigirá um processo muito cuidadoso para dar certo. O fato de ser pela Medida Provisória tende a pegar um caminho que não é bom. Poderia continuar no Congresso, ter um grande debate junto. É uma proposta de mudar muitos componentes da modalidade de ensino médio, não é algo simples”, afirma.

Para ela, é muito grave a edição de uma medida provisória para tratar do tema: “Você atropela um processo que já vinha em discussão. Já havia se chegado a um acordo de alguns pontos. Mas outros não foram debatidos, porque não houve processo de debate mais amplo.”

Maria Alice reflete que a direção da flexibilidade é importante, já que é parte do que os jovens estão querendo e dialoga com questões contemporâneas, com diferentes opções, percursos de conhecimento. “Não precisa ser igual para todo mundo. Agora, isso é uma parte. Coreia e Finlândia [países citados como referência pelo Governo para a mudança de modelo], por exemplo, estão em outro patamar. Temos que fazer essa flexibilização, mas temos de fazer com outros dados que a Medida Provisória não contempla. Exemplo: 30% dos alunos de ensino médio nas escolas públicas no Brasil estão no curso noturno e isso não é discutido. Há distorção também com alunos mais velhos ali no ensino médio e os ‘nem-nem’ (nem estudam e nem trabalham). São questões que se você não resolve junto com mudança no currículo, você cria um abismo entre alunos e escolas. Algumas escolas vão mudar seu método, mas outras vão ficar atrás. Mas vamos pensar isso com sua devida complexidade. A MP não diz ainda como essa reforma vai ser financiada. Hoje os Estados que estão falidos não têm como financiar essa reforma. Vamos financiar só um pedaço para que se torne vitrine política, e depois aumenta? Esta reforma implica ainda um forte componente da qualidade do professor.”

(BRASIL247)

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