Coluna Cultura Isabela Abes Casaca

[Resenha] A Balada de Leithian (ou Libertação do Cativeiro) – por Isabela Abes Casaca

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Isabela Abes Casaca

Nos anos de 2001, 2002 e 2003; a grande obra literária de J. R. R. Tolkien foi adaptada para a linguagem cinematográfica. Vez em quando, espanto-me ao pensar que a trilogia O Senhor dos Anéis tem mais de dez anos. Considero meu contato com esta trilogia, um dos divisores de águas de minha vida.

Os filmes levaram-me aos livros, e os livros auxiliaram no meu desenvolvimento, crescimento e maturação. Não é por acaso, esta trilogia figura na lista das 100 maiores obra literárias de todos os tempos. A leitura da mitologia tolkieniana (O Silmarillion, O HobbitO Senhor dos Anéis e outros), cativou-me e foi um degrau para a expansão das minhas virtudes intelectuais.

O poder dos símbolos, dos mitos, dos contos de fadas e das histórias de alta fantasia já são reconhecidas por estudiosos de diversas áreas: Albert Einstein, Carl Gustav Jung, Joseph Campbell etc. Essas narrativas são ricas em simbologias, arquétipos, metáforas e lições; que muito dizem ao coração e a psique humana. As histórias tem capacidade de promover a reflexão e o crescimento do indivíduo. Por esse motivo, tanto gosto de mitologia e literatura.

Pela extensão dos escritos de Tolkien, volte e meia encontro um novo detalhe e um novo aprendizado. O que já me levou a escrever outras vezes, referenciando a produção do filólogo inglês: O Descaminho de Saruman e Minas Gerais ou Minas Moria? Hoje regresso ao tema, a fim de comentar uma das histórias mais belas escritas pelo literato: A Balada de Leithian, que em nosso idioma significa Libertação do Cativeiro.

É provável que muitos tenham encantado-se com a história de Aragorn Telcontar e Arwen Undómiel, narrada na trilogia do Anel e nos apêndices da mesma. Isto, per si, é motivo para conhecer a Balada de Leithian. Segundo a cronologia, Aragorn e Arwen são descendentes dos protagonistas desta gesta; o dilemas deles é um eco dessa saga ocorrida em longínquas Eras. Inclusive, especula-se que ambos são reencarnações dos personagens que protagonizam a balada, todavia é apenas uma tese.

Aragorn caminhava sozinho na floresta; seu coração estava  leve e ele cantava, pois sentia-se cheio de esperanças e o mundo era belo. E de repente, no momento em que cantava, viu uma donzela caminhando numa gramado (…); parou então assustado, pensando que se tinha perdido em um sonho (…). Estivera cantando uma parte da Balada de Lúthien, que conta sobre o encontro de Lúthien e Beren (…). Eis que Lúthien estava ali, caminhando diante de seus olhos (…). Por um momento Aragorn observou em silêncio, mas, temendo que ela fugisse e nunca mais aparecesse, chamou-a, gritando, Tinúviel, Tinúviel, da mesma forma que Beren fizera nos Dias Antigos (…). Então a donzela virou-se (…) e sorriu, dizendo: – Quem é você? E por que me chama por esse nome? E ele respondeu: – Porque achei que você fosse realmente Lúthien Tinúviel, sobre quem estava cantando (…). Muitos já disseram isso – respondeu ela num tom grave – Mas o nome dela não é o meu. Embora talvez nossos destinos não sejam diferentes.” (Trecho do Apêndice A, Anais dos Reis e Governantes, I. Os Reis Númenorianos, v. Aqui Segue-se uma Parte da História de Aragorn e Arwen, O Senhor dos Anéis)

The first meeting of Aragorn and Arwen (Anke Eissmann)

Aragorn vê Arwen (Anke Eissmann)

Não por acaso, Aragorn (também conhecido como Passolargo), é o primeiro personagem a mencionar a Balada de Leithian. Ele narra sinteticamente, para os hobbits, a gesta de Beren e Lúthien; que tanto se assemelha com sua própria vida:

– Vou contar-lhes a história de Tinúviel – disse Passolargo. – Resumida, pois essa é uma longa história da qual não se sabe o fim; e ninguém atualmente, com exceção de Elrond, pode lembrá-la exatamente como era contada há tempos. É uma bela história, embora triste, como todas as histórias da Terra-média; mesmo assim ela pode animar seus corações. (…) É difícil reproduzi-la na Língua Geral, e o que cantei é apenas um eco rude dela. Fala sobre o encontro de Beren, filho de Barahir, e Lúthien Tinúviel. Beren era um homem mortal, mas Lúthien era a filha de Thingol, um Rei Élfico da Terra-Média na época em que o mundo era jovem.” (Trecho do capítulo Uma Faca no Escuro, d’O Senhor dos Anéis, A Sociedade do Anel)

A descrição detalhada, por sua vez, está em um capítulo do livro O Silmarillion e num poema incompleto, integrante da coleção A História da Terra-Média, volume 3: As Baladas de Beleriand (ainda sem tradução oficial para o português).

Lúthien (Ted Nasmith)

Lúthien (Ted Nasmith)

Beren, um homem da Casa de Bëor, distante das linhagens nobres élficas; porém com grande coragem e honra; lutava contra Morgoth (o inimigo escuro do mundo), frustrando seus intentos de dominar a Terra-Média e corromper a criação de Eru Ilúvatar (Criador onipotente). Não temia a morte, apenas o cativeiro; devido a seus feitos, foi perseguido e só lhe restou a fuga como alternativa. Pelos designo do destino, conseguiu atravessar os labirintos mágicos que guardavam os limites do reino de Thingol.

Conta a Balada de Leithian que Beren chegou trôpego a Doriath, grisalho e encurvado, como por muitos anos de sofrimento, tal havia sido o seu tormento na viagem. Entretanto, perambulando no verão pelos bosques de Neldoreth, ele deparou com Lúthien, filha de Thingol e Melian, a certa hora da noite (…). Nesse instante, toda a lembrança  de dor abandonou Beren, e ele foi dominado pelo encantamento.” (Trecho do capítulo De Beren e Lúthien, dO Silmarillion)

Após essa primeira visão, Lúthien desapareceu; Beren emudeceu, até que a reencontrou e a chamou gritando: Tinúviel (quer dizer rouxinol). No instante que o contemplou, o destino a dominou e ela o amou. Eles passaram a encontrarem-se frequentemente. Entretanto, havia um elfo chamado Daeron, que também amava a princesa de Doriath; descobrindo o encontro dos enamorados, contou ao rei Elu Thingol.

Beren and Lúthien (Anke Eissmann)

Daeron observa Beren e Lúthien (Anke Eissmann)

O rei obviamente não gostou, pois considerava o mortal como alguém de raça e nobreza inferior a de sua filha. Apesar do desdém do rei elfo, Beren ousou pedir a mão de Lúthien, pois havia descoberto algo que não procurava, mas, que ao encontrar, reconheceu valer mais que todo ouro e toda prata, e que superava todas as pedras preciosas. Nada seria capaz de afastá-lo do tesouro que descobrira.

Thingol, ardilosamente propõe um desafio dificílimo ao mortal; para ganhar o direito de segurar a mão de Lúthien, Beren deveria conseguir uma jóia preciosa da coroa de Morgoth: uma Silmaril. Assim, o rei de Doriath acreditava mandar o humano para a morte. Mesmo perante o desafio, Beren não recuou e jurou,  que quando regressasse, sua mão seguraria uma Silmaril, sem demora seguiu para sua jornada. Por sua vez, Lúthien daquela hora em diante não voltou a cantar.

A fim de cumprir sua missão, Beren buscou auxilio do rei elfo Finrod Felagund, velho amigo de seus ancestrais. Eles vão em direção a fortaleza de Morgoth: Angband. No caminho Sauron os embosca; havendo um duelo entre Finrod e o servo de Morgoth, este sai vencedor; aprisionando os amigos num escuro calabouço. Lúthien, em Doriath, sente em seu coração que Beren estava cativo, decidindo ir ao seu auxílio. Porém, foi impedida por seu pai, que a colocou numa casa, na mais alta árvore de Neldoreth, sem escadas para descer.

A Balada de Leithian conta como Lúthien escapou (…). Ela acionou suas artes de encantamento e fez com que seus cabelos crescessem até um comprimento enorme. Com eles, teceu um manto escuro que envolvia sua beleza como uma sombra; e esse manto também estava carregado com o encantamento do sono. Dos fios que sobraram, ela fez uma corda (…). Quando a ponta começou a balançar diante dos guardas que vigiavam ao pé da árvore, eles caíram em sono profundo. Lúthien então desceu de sua prisão e, envolta no manto de sombra escapou (…) de Doriath.” (Trecho do capítulo De Beren e Lúthien, dO Silmarillion)

Lúthien escapa (Anke Eissmann)

Lúthien escapa (Anke Eissmann)

No caminho, a princesa encontrou-se com Huan, um grande cão de caça, que a auxilia a chegar até o lugar onde Beren e Finrod estão cativos. Nas masmorras, Felagund luta com um lobo monstruoso, para salvar seu companheiro; nessa batalha derrota o monstro, mas acaba morrendo também. O mortal só foi libertado com a chegada de Lúthien e Huan, que desafiaram e subjugaram Sauron. Os três, depois de um ínterim de descanso e desventuras, rumaram até Angband, para cumprir o desafio.

Beren procurou dissuadir Tinúviel a não acompanhá-lo, porém isto não foi possível, pois o fado pertencia aos dois. Findando um longo caminho, chegaram a prisão de ferro; disfarçados adentraram, até chegarem diante do trono do sinistro Morgoth, mas o senhor da escuridão conseguia enxergar através de seus disfarces.

A princesa então começou a cantar, toda a corte de Morgoth e inclusive Beren caíram em um profundo sono. Aproveitando-se disso ela saltou no ar e atirou sua capa encantada sobre os olhos de Morgoth, protegendo Beren e a si mesma dele. Ela acordou o mortal e ele retirou uma Silmaril da coroa de ferro do vilão.

Quando a guardou na mão fechada, o brilho atravessou sua carne viva, e sua mão parecia uma lamparina acesa; mas a pedra aceitava seu toque sem o ferir. Ocorreu então a Beren superar seu juramento e levar de Angband todas as três jóias (…), mas não era essa a sina das Silmarils. A faca (…) estalou, e um estilhaço da lâmina voou e atingiu o rosto de Morgoth. Ele deu um gemido e se mexeu, e toda a hoste de Angband se agitou no sono. O pavor dominou então Beren e Lúthien; e os dois fugiram desatentos e sem disfarce, desejando apenas voltar a ver a luz.” (Trecho do capítulo De Beren e Lúthien, dO Silmarillion)

Beren e a Silmaril (Anke Eissmann)

Beren e a Silmaril (Anke Eissmann)

Quando chegaram ao portão; Carchacorth, o maior de todos os lobos de Morgoth os impediu, devorando a mão de Beren que segurava a jóia luminosa. Naquele momento crítico, o homem e a elfa forma resgatados por grandes águias, conseguindo salvar-se, apesar de toda a escuridão. Enfim, regressaram a Doriath.

Ao ser interpelado por Thingol, sobre o sucesso da demanda, Beren mostrou-lhe o braço sem mão e disse que segurava uma Silmaril. A insatisfação do rei abrandou-se, ele percebeu que aquele homem era diferente de todos os outros mortais e que o amor de Lúthien era algo novo e desconhecido. Concedendo por fim, a mão da princesa ao homem.

Com decorrer do tempo, Carchacorth aproximou-se do reino de Doriath, uma caçada foi organizada para abater o lobo monstruoso. Durante a busca, Beren foi atacado pela besta; Huan saltou para defendê-lo e matou o lobo, porém feneceu devido a ferimentos mortais, ao lado de seu amigo. O mortal foi carregado até o palácio, onde morreu nos braços de Lúthien, após ela prometer a ele que o esperaria além do grande mar, após a vida.

Missão cumprida (Anke Eissmann)

Missão cumprida (Anke Eissmann)

Ele olhou nos olhos dela antes que o espírito o deixasse. Mas a luz das estrelas estava apagada, e as trevas se abateram até mesmo sobre Lúthien Tinúviel. Assim terminou a Demanda da Silmaril; mas a Balada de Leithian não termina aí. Pois o espírito de Beren, a pedido de Lúthien, demorou-se nos palácios de Mandos, sem querer deixar o mundo, enquanto Lúthien não viesse para a última despedida nas praias sombrias do Mar de Fora, onde os homens que morrem partem para nunca mais voltar. Mas o espírito de Lúthien afundou na escuridão e finalmente fugiu, deixando seu corpo como uma flor que é cortada de repente e jaz por um tempo sem murchar na relva.” (Trecho do capítulo De Beren e Lúthien, dO Silmarillion)

O espírito da princesa élfica foi para o palácio de Mandos, guardião dos espíritos desencarnados. Ela ajoelhou-se perante ele e entoou a canção mais bela jamais criada em palavras, e a mais triste que o mundo um dia ouvirá. A beleza era tanta que Mandos comoveu-se, pois esta reunia dois temas: a tristeza dos elfos e o pesar dos homens.

Foram-lhe concedidas duas opções: Viver num lugar onde esqueceria todas as tristezas que conhecera em vida, contudo para lá Beren não poderia ir. Já a outra escolha era: regressar a Terra Média, junto com seu amado e lá viver, sem a certeza da vida ou alegria, tornando-se mortal. Lúthien, escolheu o segundo destino.

Conta-se que Beren e Lúthien retornaram (…) e ali viveram algum tempo como homem e mulher vivos; e voltaram a assumir sua forma mortal em Doriath. Os que os viam sentiam ao mesmo tempo alegria e medo. (…) Beren e Lúthien, então, partiram sozinhos sem temer sede ou fome; (…) até que cessaram todas as notícias deles. (…) Nenhum mortal nunca mais falou com Beren, filho de Barahir; e ninguém viu Beren ou Lúthien deixar este mundo.” (Trecho do capítulo Da Quinta Batalha: Nirnaeth Arnoediad, dO Silmarillion)

Em síntese, essa é a Balada de Leithian; o capítulo do livro O Silmarillion e o poema incompleto da coleção A História da Terra-Média, trazem muitos outros detalhes, abrilhantando ainda mais a narrativa, mostrando a singeleza, coragem e perseverança do amor de Beren e Lúthien. O nome Libertação do Cativeiro, não poderia ser mais adequado; pois várias vezes os personagens são feitos cativos e libertam-se.

Ao final, miticamente superam o maior cativeiro: a separação pela morte; libertando-se triunfantemente.

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