Cultura Isabela Abes Casaca

[Resenha] O Sol É Para Todos – por Isabela Abes Casaca

Isabela Abes Casaca

tumblr_n2hgmqirYk1tucbz9o1_400O frio chegou, junto com ele os dias predominantemente cinzentos e chuvosos. Admito, não sou muito fã desse perfil climático; quando começa o frio, já inicio a contar os dias para o calor voltar.

Minha predileção é pelos dias quentes e ensolarados; o verão é uma das minhas alegrias. Um dos meus sonhos é morar num lugar onde não exista inverno.

Os estudiosos do significado simbólico dos astros, dizem que o ano de 2016 é regido pelo Sol. A energia do Astro-Rei será uma constante, fazendo-se especialmente presente em nossas vidas.

Coincidentemente, a obra que lia no começo dessa regência, que iniciou dia 20 de Março, era O Sol É Para Todos. O livro é de autoria de Harper Lee, foi lançado em 11 de julho de 1960. O título brasileiro é distante do original: To Kill a Mockingbird.

Todavia, considero a nomeação O Sol É Para Todos, muito boa. Antes de saber da existência desse livro, esses dizeres faziam parte da minha memória, como uma espécie de provérbio. Certa noite, deparei-me com um filme de 1962, cujo o título eram justamente essa frase emblemática. Decidi assisti-lo prontamente, após subirem os créditos fui pesquisar a origem do enredo e tomei conhecimento do livro.

Sol e para todos.indd

Capa da Edição Mais Atual

O leitor deve estar se perguntando: O que esse livro tem de tão especial?

Para começar, o romance é o ganhador do Prêmio Pulitzer, uma premiação norte-americana outorgada trabalhos de excelência na área da literatura, administrado pela Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque.

Além disso, em 2006, os bibliotecários britânicos o classificaram como uma obra que “todo adulto deve ler antes de morrer”. Se você for um fã de cinema, fica a menção: O filme também foi muito premiado, ganhando inclusive o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado.

E qual o enredo dessa história?

A narrativa transcorre no fictício condado de Maycomb, uma cidadezinha interiorana dos Estados Unidos, onde a narradora-protagonista vivencia sua infância, juntamente com seu irmão mais velho e outro amigo de veraneio, respectivamente: Jean Louise Finch (apelidada de Scout), Jeremy Finch (apeliado de Jem) e Dill Harris.

A primeira parte do livro é um relato da infância dessas três crianças; um registro interessantíssimo, pois relembramos como era a infância antes da avalanche digital e eletrônica. A televisão é uma mera projeção futura, o ápice da tecnologia é o rádio; as crianças divertem-se lendo, encenando peças de teatro, brincando ao ar livre, imaginando histórias mirabolantes a respeito do vizinho que mora ao lado.

Jean e Jem são filhos do advogado Atticus Finch.

Atticus-FinchA princípio este pai mostra-se, aos olhos dos filhos, como uma pessoa meio sem graça, ele não fazia as coisas que os pais dos colegas de escola faziam: não caçava, não jogava pôquer, não pescava, não bebia, nem fumava. Só ficava sentado na sala lendo.

Contudo, com desenrolar da narrativa, Atticus revela-se um exemplo de moral e integridade, é um homem honrado, sem fingimentos, a mesma pessoa dentro e fora de casa.

Um dos detalhes que me chamou atenção, essa personalidade virtuosa não é construída sobre um tipo de idealização. Em vários momentos da trama, fica-se subentendido que, Atticus conhece bem sua própria sombra, por essa razão, consegue edificar solidamente sua moral e seu eu. Um homem sensato que não se orgulha dos seus próprios talentos.

Com a evolução da narrativa e o crescimento das crianças, o livro gradua sua temática e mostra sua verdadeira intenção; não é apenas o relato de uma infância à moda antiga, mas um retrato a respeito do ser humano. Sim, isso mesmo, é um livro a respeito de gente. E o que tipo de gente? Gente, oras. “Eu acho que só existe um tipo de gente: gente.

Scout nos conta das particularidades dos moradores de Maycomb, verificamos nuances da alma humana. Há a senhora que aprovava e defendida todos os princípios morais, e ao mesmo tempo era uma fofoqueira incurável, não perdendo a oportunidade de apontar os defeito dos outros e ressaltar os seus.

Há também a família que vive as custas do erário, nenhuma flutuação conseguia alterar a posição social deles, tanto na mais profunda depressão, quanto na prosperidade. Nenhum inspetor escolar conseguia obrigar os inúmeros filhos a frequentar a escola, nenhum agente de saúde pública conseguira livrá-los de defeitos congênitos.

Há os vizinhos mau humorados. Há também a vizinha agradável, que cultivava um lindo jardim. Há Calpúria, a senhora que trabalhava na casa dos Finch’s, já que o Atticus era viúvo. Há os agricultores, que apesar do pouco dinheiro, pagavam os débitos com o fruto de seu cultivo. Há as professores que esmeram-se em ensinar os alunos… Assim por diante.

Essas personagens convivem entre si, como é de se esperar, as personalidades eventualmente entram em conflito. Afinal, é uma tendencia, quase todo mundo acha que está certo e o outro está errado. Então, o livro nos apresenta uma lição de alteridade: “Se aprender um truque simples, vai se relacionar melhor com todo o tipo de gente. Você só consegue entender uma pessoa quando vê as coisas do ponto de vista dela“.

To Kill a Mockingbird (1962) Directed by Robert Mulligan Shown from left: Gregory Peck (as Atticus Finch), Brock Peters (as Tom Robinson)

O maior desses conflitos, é um crime de competência do Tribunal do Juri: Tom Robinson (um negro) é acusado (injustamente) por Bob Ewell de estuprar sua família, Mayella Ewell. Atticus é designado defensor do réu; pela própria natureza da profissão que exerce, este caso chega a afetá-lo pessoalmente.

Não são raros os ataques que o advogado e sua família sofrem da população de Maycomb, que em sua maioria era racista. Ainda sim, Atticius resigna-se: “Essas pessoas têm o direito de pensar assim, e têm todo o direito de ter sua opinião respeitada“. Porém, mantem a fidelidade a sua própria consciência, empenhando-se em defender Tom: “Antes de ser obrigado a viver com os outros, tenho de conviver comigo mesmo. A única coisa que não deve se curvar ao julgamento da maioria é a consciência de uma pessoa“.

Mesmo sabendo que as chances de ganhar são mínimas, aceita o litígio: “Ainda que tenhamos perdido antes mesmo de começar, não significa que não devamos tentar“. A perseverança de Atticus nos faz conhecer um pouco da verdadeira coragem, segundo o advogado: “Em vez de pensar que coragem é um homem com uma arma em mãos, coragem é fazer uma coisa estando derrotado antes de começar. E mesmo assim ir até o fim, apesar de tudo. Você raramente vai vencer, mas às vezes  vai conseguir“.

Essa virtude fica clara perante os olhos de seus filhos, em momentos como esse, Jean considera seu pai, que detestava armas e nunca tinha ido a nenhuma guerra, o homem mais corajoso que já existiu. Essa coragem contagia também as próprias crianças.

A repercussão é tão grande, na vida dos infantes, que estes conseguem até desarmar uma multidão. Desmontando o efeito manada, relembram que os integrantes de um coletivo, nada mais são do que pessoas. Uma multidão, qualquer que seja ela, é sempre formada de pessoas. Um bando de homens descontrolados pode ser contido, simplesmente porque eles continuam sendo humanos, só precisam relembrar de sua humanidade.

To Kill a Mockingbird (1962). Courtroom drama film in which Atticus Finch, a lawyer in the Depression-era South, defends a black man against an undeserved rape charge. Stars: Gregory Peck. (Photo by: Universal History Archive/UIG via Getty images)

Enfim, chega o dia do julgamento, Atticus busca fazer o seu melhor para defender Tom Robinson. Sua argumentação é lógica e precisa. Praticamente todos os moradores se fazem presentes, até as crianças. Entre os espectadores, ressalto a presença da comunidade negra da cidadezinha, que presta ao advogado a maior homenagem que se pode fazer a um homem: confiar nele para fazer o que é certo. Simples assim. Eles acreditam que um julgamento justo é direito de todos.

Não direi qual é o veredito, afinal esse é um dos pontos ápices da história, limito-me a dizer que temos o juri que merecemos. Mas, transcrevo o discurso final de Atticus perante o Tribunal:

Mas há algo nesse país diante de qual todos os homens são iguais, há uma instituição que torna o pobre igual a um Rockefeller, um idiota igual a um Einstein e um ignorante igual a um reitor de universidade. Essa instituição, senhores, é o Tribunal de Justiça. Pode ser a Suprema Corte, o juizado mais simples do país ou este honrado tribunal, ao qual os senhores servem. Como qualquer instituição, os nossos tribunais têm falhas, mas são os maiores niveladores deste país, para os nossos tribunas todos os homens nasceram iguais.

Não sou idealista a ponto de acreditar piamente na integridade de nossos tribunais e do sistema judiciário, não se trata de um ideal, mas de uma realidade viva, que funciona. Senhores, o tribunal não é melhor do que cada um dos jurados sentados à minha frente. Um tribunal é tão integro quanto seu júri, e um júri é tão integro quanto os jurado que o compõem.

to_kill_a_mockingbird_render_by_buz_mavisi-d6io9ajPor fim, a lição que fica, em O Sol É Para Todos, é: a luz do Astro-Rei é para todos, ela não escolhe a ninguém, sob o Candeeiro Celestial cada um tem seu lugar.

Apesar das diferenças, é preciso aprender a conviver, buscando ser justo com os outros e conosco, não ocultando a nossa sombra nos redutos profundos da alma, mas trazendo-a para claridade.

Também nos ensina que, é necessário ser gentil com nosso semelhante, mesmo que não o entendamos a princípio. O título original guarda intrínseca relação com isso, através da metáfora do mockingbird.

O mockingbird é uma ave que não existe no Brasil. Um pássaro considerado especial, pois não faz nada além de cantar para nosso deleite. Não destrói jardins, não destrói milharais; ele só canta. “Por isso é um pecado matar um mockingbird“.

Mas, vou terminando por aqui. Acabei de ganhar mais um motivo para sorrir, por que o Sol saiu.

Comentários

comentários

Deixe seu comentário

error: Ops! não foi dessa vez.