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Um velho e querido amigo (Por Paulo Figueiredo)

Advogado Paulo Figueiredo(AM)
Redação
Escrito por Redação

Evandro Carreira tinha a vocação para o desafio e viveu em permanente duelo com a herança cultural de sua gente. Insubordinava-se diante das convenções e contestava as estruturas estabelecidas, sem jamais aderir a qualquer opção ideológica estratificada.
E assim foi abrindo os próprios caminhos, com a marca que distingue os pioneiros. Desfrutou dos bons ares de nossa Manaus província, com todas as virtudes do aconchego e do bem-querer, características das pequenas cidades, um pouco perdidas no tempo. Fez-se intelectual, num ambiente cultural efervescente, com o mesmo timbre da irresignação, que logo levaria aos debates políticos.

Foi vereador e senador da República. Recordo de sua eleição para o Senado.  Sem chances, ainda que remotas, nele ninguém apostava um centavo sequer. Foi candidato porque não apareceu quem se dispusesse a enfrentar o jogo na época, pelo antigo MDB – Movimento Democrático Brasileiro, em plena ditadura militar. Dada como favas contadas a vitória de Flávio Brito, já senador e presidente da Confederação Nacional da Agricultura, afinadíssimo com a insurreição de 1964, o nosso Evandro Carreira ganhou o pleito, derrotando a então invencível Arena – Aliança Reno vadora Nacional.

A disputa era polarizada pelo bipartidarismo imposto pelo golpe militar. O MDB, criado para ser oposição, e a Arena, instituída para ser governo, traduziam um embuste que procurava mascarar a ditadura como democracia, via eleições regulares, mas sempre consentidas. Evandro, gongórico por excelência, deitou e rolou, ao aproveitar-se de uma referência infeliz à sua mãe, em programa de televisão, uma escorregadela de Brito. Conquistou o mandato, sensibilizando os eleitores amazonenses, que também já andavam um pouco cansados do golpe, com um discurso sofrido, profundamente emocional e altissonante, bem a seu estilo.

Levou para o Senado a bandeira da ecologia, ideia sem maiores apelos no seio da sociedade brasileira, ainda insensível à luta em defesa do meio ambiente. Inaugurou no Brasil o bom combate, pode-se dizer, e traduziu suas propostas no que chamou de Recado Amazônico, obra editada em vários volumes, que guardo com zelo em minha biblioteca. Muitas de suas elucubrações já fazem parte do dia a dia das atividades econômicas na região, mesmo que de forma tímida, por não dispor de incentivos que deveriam merecer, frente à imposição natural do aproveitamento das inclinações e vocaçõ es amazônicas.

Carreira insurgiu-se contra a pata do boi na região e se opôs aos grandes e faraônicos projetos da ditadura militar. Defendeu, em pronunciamentos exaustivos, considerados quixotescos ou mesmo folclóricos, a utilização das grandes áreas de várzea e a criação de um sem-número de fazendas aquáticas, como fábricas de proteína. Sustentou a necessidade de apropriação urgente do notável banco biogenético da Amazônia, com amparo em pesquisas científicas, voltadas para a produção de bens de largo alcance, em benefício da humanidade. Os rios amaz&o circ;nicos e suas derivações, o homem sofrido e isolado pela desassistência histórica, a floresta, seus habitantes e variegadas espécies, compuseram desde sempre o universo espiritual do homem, do intelectual e do político, na dimensão da audácia de Evandro das Neves Carreira, profeta maior e arauto da grande hileia.

Foi meu amigo fraterno. Senador, de 1975 a 1983, sempre nos encontrávamos, quando vinha de Brasília ao Rio de Janeiro. No Rio, varamos muitas noites e madrugadas juntos, com lembranças plenas de nossa Manaus, em meu apartamento no Leblon e pelos bares da cidade. Aqui e ali, declamávamos os poemas que sempre acarinharam nossa alma, como intérpretes modestos, mas convictos, de belas criações da poesia amazonense e universal. Evandro, apaixonado pelos versos alexandrinos de Jonas da Silva, um de seus antepassados, não se cansava nunca de trazer à mesa alguns de seus clássicos, com os olhos em véspera de lágrima de tanta emoção.

Tenho muitas histórias de Evandro e com Evandro, algumas já de conhecimento público. Encerro com uma delas. Convidado para proferir palestra para estudantes e professores da Escola Americana do Rio de Janeiro, o senador Carreira não se fez de rogado. Subimos a Estrada da Gávea, com Justino Melo, nosso estimado amigo, ex-deputado federal pelo Amazonas, na direção de um velho automóvel. Evandro expressou-se em inglês fluente, cavalgando sobre suas mensagens amazônicas, radicalizou contra a depredação da natureza e terminou verberando contra os graves equívocos de nossa história, porquanto nos revelamo s incapazes de aproveitar a herança e os recursos do período áureo da borracha. Não conseguimos edificar nada além do Teatro Amazonas, uma iniciativa altamente questionável, segundo Carreira. Se tivéssemos pelo menos estudado a região, a realidade hoje seria outra, concluiu sob aplausos entusiásticos da sofisticada plateia.

Sinto-me agredido com  a morte de meu amigo e irmão. E neste ano, que ano cruel, perdemos tantos. Bem, é a falência da vida, em cujo estuário vai ficando a saudade e a dor de perdas jamais compensadas.(Paulo Figueiredo – Advogado, Escritor e Comentarista Político – paulofigueiredo@uol.com.b)

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